CONTAMINANTES AMBIENTAIS E OS SEUS EFEITOS SOBRE A GRAVIDEZ E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL

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Artigo publicado na Revista Nº9 de Maio de 2022 da SESAP (Sociedad Española de Salud de Precisión)

 

Vivemos num mundo em que o contacto com materiais naturais é cada vez mais reduzido, tendo contacto a todos os instantes com produtos produzidos pelo homem, sendo que esta produção implica o uso de mais de 85.000 substâncias químicas, a evitação desse contacto, é portanto quase impossível. Algumas dessas substâncias são tóxicas e provocam efeitos adversos à saúde, outras com a sua constante presença no corpo humano e em sinergia e interação com outros produtos e com o organismo humano levam à alteração da homeostase, induzindo alterações que com o tempo propiciam o desenvolvimento de patologias.

Uma das fases mais críticas do organismo humano é fase do seu desenvolvimento, ou seja, o desenvolvimento gestacional. Foi levantada a hipótese pela teoria das origens do desenvolvimento da saúde e doenças de que a influência da exposição ambiental in útero, altera a programação fetal e consequentemente aumenta o risco de doenças crónicas durante a vida.(Gluckman et al., 2010)

O contacto com estas substâncias é feito através de tudo o que fazemos: do ar que respiramos, do que comemos e bebemos, do que colocamos na pele para lavar ou para vestir.

Algumas destas substâncias são consideradas disruptores endócrinos (DE), um disruptor endócrino químico é definido como um produto químico exógeno, ou mistura de produtos químicos, que interfere com qualquer aspeto de ação hormonal, (Thomas Zoeller et al., 2012), ou seja, têm a capacidade de se comportar como hormonas, alterando o normal funcionamento do sistema endócrino e alterando naturalmente a ação de hormonas como os estrogénios, androgénios, progestagenos ou hormonas tiroideias. Os efeitos indesejáveis que os DE podem causar podem ser devidos à capacidade de mimetizar ou antagonizar os efeitos das hormonas endógenas, alterar a sua síntese e metabolismo, ou provocar alterações nos recetores hormonais.

Sendo a gravidez um processo complexo e maioritariamente regulado por processos hormonais é essencial ter em consideração de que forma é que estes DE interferem com o organismo da gestante neste período tão critico e essencial ao desenvolvimento de um novo ser.

Entre os contaminantes ambientais que podem interferir com a saúde da grávida, do feto e da criança podem ser enumerados os seguintes:

CLASSIFICAÇÃO EXEMPLOS
Químicos halogenados persistentes e bioacumulativos
Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) PCDDs/PCDFs, PCBs, HCB, PFOS, PBDEs, PBBs, Clordano, Mirex, Toxafeno, DDT/DDE, Lindano, Endosulfano
Outros Quimicos persistentes e bioacumulativos HBCDD, SCCP, PFCAs (exemplo PFOA), Octacloroestireno, PCB metil sulfonas
Químicos menos persistentes e bioacumulativos
Plastificantes e outros aditivos em materiais e mercadorias Ésteres de Ftalatos (DEHP, BBP, DBP, DiNP), Trifenil fosfato, Bis(2-etilexil)adipato, n-Butilbenzeno, Triclocarbano, Butilated hidroxianisole
Químicos policíclicos aromáticos incluindo PAH’s Benzo(a)pireno, Benzo(a)antraceno, Pyreno, Anthraceno
Químicos Fenólicos Halogenados (HPCs) 2,4-Diclorofenol, Pentaclorofenol, Hydroxi-PCBs, HydroxiPBDEs, Tetrabromobisfenol A, 2,4,6-Tribromofenol, Triclosan
Químicos Fenólicos Não-Halogenados (Não-HPCs) Bisfenol A, Bisfenol F, Bisfenol S, Nonilfenol, Octilfenol, Resorcinol
Pesticidas, Fármacos e Ingredientes de produtos de higiene pessoal
Pesticidas de uso corrente 2,4-D, Atrazina, Carbaril, Malatião, Mancozeb, Vinclozolin, Procloraz, Procimidona, Clorpirifos, Fenitrotion, Linuron
Fármacos, Promotores de crescimento e ingredientes de produtos de higiene pessoal Ativos endócrinos (exemplo: Dietillstilbestrol, Etinilestradiol, Tamoxifeno, Levonorgestrel), Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (exemplo: fluoxetina), Flutamida, 4-Methilbenzilideno canfora, Octil-methoxicinamato, Parabenos, metil siloxanos ciclicos (D4, D5, D6), Galaxolide, 3-Benzilideno canfora
Outros químicos
Metais e químicos organometálicos Arsénio, Cadmio, Chumbo, Mercúrio, Methilmercurio Tributiltin, Trifeniltin
Hormonas naturais 17β-Estradiol, Estrona, Testosterona
Fitoestrogéneos Isoflavonas (exemplo: Genisteina, Daidzeina), Coumestanos (exemplo: Coumestrol), Micotoxinas (exemplo: Zearalenona), Prenilflavonoides (exemplo:8-prenilnaringenina)

 

Tabela 1. Categorização dos DE e alguns exemplos. Adaptada de (UNEP/WHO – Bergman, Å.; Heindel, J. J.; Jobling, S.; Kidd, K. A.; Zoeller, R. T., 2012).

 

Estes DE provêm de numerosas fontes e entram no ambiente e posteriormente no organismo das grávidas e crianças a partir de diversas vias. Através do ar, do solo e da água, estes DE entram na cadeia alimentar, e uma vez que grande parte deles são persistentes e lipofílicos têm tendência a acumular-se, nomeadamente no corpo humano (e em maior quantidade nos organismos com alterações no funcionamento dos mecanismos de detoxificação).

Qualquer um destes contaminantes provoca alterações nos organismos, nomeadamente nas crianças, pois são mais vulneráveis uma vez que, os mecanismos funcionais do sistema imunitário e de detoxificação do organismo não estão ainda completamente desenvolvidos.

Durante a gravidez, as mulheres podem ser expostas a mais de 50 DE em conjunto (Woodruff et al., 2011).

Estudos epidemiológicos começaram a associar a exposição a DE com desfechos patológicos na gravidez, tais como, baixo peso ao nascer, peso da placenta e mais recentemente complicações da gravidez (Birks et al., 2016)(Marsit, 2015) como hipertensão e hemorragia pós-parto (Varshavsky et al., 2020).

Devido à passagem placentária de muitos destes DE está estabelecido que estes afetam o desenvolvimento dos fetos e das crianças pequenas devido à exposição no período uterino e com consequências a longo prazo na vida futura. (Barouki et al., 2012)

Assim são já consideradas várias desordens e patologias associadas à exposição destes DE durante o desenvolvimento fetal, são exemplos: baixo peso ao nascer (Veiga-Lopez et al., 2015), (Troisi et al., 2014), prematuridade (Weinberger et al., 2014), (Ferguson, McElrath, et al., 2014), asma e alergias (Gascon et al., 2015), desordens no desenvolvimento pubertal (Ferguson, Peterson, et al., 2014), anormalidades congénitas (Troisi et al., 2014), desordens neurocomportamentais (Kalkbrenner et al., 2014), (Braun et al., 2014), cancro de mama (Cohn et al., 2015), alteração nos sistemas fisiológicos que controlam o desenvolvimento de gordura, aumento de peso e níveis de glucose, impactando no desenvolvimento de diabetes, obesidade e doenças cardiovasculares (Thayer et al., 2012).

Os principais mecanismos de ação dos DE estudados são os estrogénicos (compostos que mimetizam ou bloqueiam os estrogénios naturais), androgénicos (compostos que mimetizam ou bloqueiam a testosterona natural) e tiroideus (compostos que têm impacto direto ou indireto na tiróide)(Snyder et al., 2003). Também podem interferir com o metabolismo, acumulação de gordura, desenvolvimento ósseo e com o sistema imunitário, ou seja, os DE podem e vão afetar todos os sistemas endócrinos. (UNEP/WHO – Bergman, Å.; Heindel, J. J.; Jobling, S.; Kidd, K. A.; Zoeller, R. T., 2012). Os DE podem utilizar mais do que um mecanismo de ação.

O impacto dos DE pode variar consideravelmente durante o ciclo de vida de um organismo e é frequente serem particularmente severos durante a gestação e o desenvolvimento inicial do organismo. Os seus impactos podem ocorrer muito tempo depois da exposição e muitos DE exibem impactos transgeracionais (epigenéticos).

Assim, analisando os resultados obtidos nos inúmeros estudos revistos percebe-se a grande diversidade de DE que podem entrar no corpo da grávida. Os principais DE referidos foram os ftalatos e os seus metabolitos, os bisfenóis, PBDE, TBBPA e os metais. Estes DE foram encontrados em tecidos da grávida (placenta, cordão umbilical) e em amostras de fluidos (a mais comum, urina). Foi também observado através das variadas amostras que a percentagem de presença destes compostos era sempre muito elevada, sempre a cima dos 90% e muitas vezes em 100% das amostras. As principais vias de contaminação das grávidas descritas para os DE são através da ingestão, inalação e contacto com a pele, uma vez que estão presentes em produtos como plásticos, sabonetes, pasta de dentes, dispositivos médicos, têxteis. Será de importância máxima informar a grávida para o impacto que estes DE podem ter na saúde materna, fetal e do bebé, e ensinar que de forma se podem expor menos.

Existe uma adaptação fundamental do organismo humano à gestação, e alguns dos órgãos com o maior impacto nessa regulação podem ser afetados pela exposição a contaminantes ambientais. Durante a exposição a DE foram observadas alterações na tiróide da mulher grávida, no sistema reprodutor, na placenta, útero e sistema imunitário. Dos estudos revistos percebeu-se que alguns dos DE, como o BPA, ftalatos e cádmio atravessam rapidamente a barreira placentária atingindo concentrações similares às apresentadas no plasma materno. Sendo alguns destes DE resistentes à degradação metabólica e sendo lipofílicos persistentes a tendência é acumularem-se no tecido gordo. As consequências que advêm da exposição destes DE ao corpo da mulher grávida, tem por base alterações hormonais, do sistema imunitário e que, por conseguinte estão diretamente interligados com um estado de stress oxidativo nos vários órgãos, implicando o incorreto funcionamento dos mesmos e desencadeando alterações aberrantes, patologias associadas a essas alterações e o saudável progresso da gestação. Algumas das alterações descritas provocadas pela exposição aos DE no corpo da mulher grávida são as patologias metabólicas, resistência à insulina, estados inflamatórios, desordens neurodegenerativas, alergias, carcinogénese. Especificamente no órgão placenta as alterações provocadas, podem desencadear em resultados obstétricos adversos como sejam o aborto, parto prematuro, preeclampsia, restrição de crescimento fetal. Uma vez que os DE bioacumulam e a não exposição aos mesmos é quase impossível, seria importante perceber o impacto destes contaminantes nos órgãos de desintoxicação e de que forma podem potenciar a acumulação dos mesmos no corpo da grávida.

Os estudos demonstram o impacto que os DE têm no decurso da gravidez e os resultados adversos associados. De entre os DE conhecidos, os que mais evidência têm, de interferir com a correta progressão da gravidez são os ftalatos, no entanto, vários resultados interligam outros DE, como os PFAS, BPA, chumbo e cádmio, pesticidas ou ar poluído. Das principais vias descritas para estes efeitos deletérios dos DE no organismo gestante, estão a disfuncionalidade de sistemas essenciais como o hormonal (nomeadamente a tiróide e vitamina D, onde se associam exposição a DE e diminuição dos niveis de hormona tiroxina e vitamina D) ou o sistema imunitário, devido a um exacerbado estado de stress oxidativo e consequente estado pró-inflamatório. Os desfechos adversos para estas alterações acontecem na grávida, como hipertensão arterial gestacional, pre-eclampsia, eclampsia, desordens da glucose, síndrome HELLP, alteração no funcionamento do sistema imunitário (alteração da tolerância imune materno-fetal), aborto, parto prematuro. No feto: anomalias no desenvolvimento neural, anomalias cromossómicas, reprogramação epigenética fetal, diminuição do peso ao nascer, criptorquidismo, hipospadias e um encurtamento da distância anogenital.

Segundo a DOHaD, a exposição a contaminantes ambientais durante a gestação (que é a altura em que existe uma maior suscetibilidade do feto a sofrer alterações no seu desenvolvimento), está associada a resultados adversos de saúde ao longo da vida.

Foram vários os DE que demonstraram já uma relação causal no desenvolvimento de patologias ao longo da infância devido à exposição pré-natal. Dos estudos revistos, os DE que mais se interligam com essas alterações são os ftalatos, BPA, PFAS, metais, pesticidas e ar poluído. As alterações ocorridas in útero predispõem para disfuncionalidades de alguns sistemas e órgãos, como o sistema hormonal ou o sistema imunitário. No que diz respeito ao sistema hormonal, as principais implicações estão associadas às hormonas tiroideias, e os resultados adversos dessa alteração de sistema advém da fundamental ação das hormonas tiroideias no desenvolvimento do feto, nomeadamente do sistema nervoso. Algumas das predisposições às doenças aumentadas devido à exposição dos DE durante a gestação são: asma e alergias, hipertensão arterial, doença coronária, obesidade, diabetes, desenvolvimento do sistema reprodutor, sistema imunitário, diminuição da capacidade de atenção, desordens do espetro autista, disfunções cognitivas e comportamentais, baixo QI, alteração função das hormonas reprodutoras, risco cardiometabólico, problemas emocionais, leucemia na infância, tumores cerebrais pediátricos.

Após a gravidez e durante o aleitamento, existem dados que sugerem uma quantidade muito elevada de PFA’s no leite materno e que esta será a principal fonte de contaminação das crianças.

Analisando os resultados obtidos nos inúmeros estudos que se realizam sobre o impacto destas substâncias no organismo humano e aqui em particular o efeito na gestação e no desenvolvimento da criança, parece-me que estamos perante um sério problema de saúde pública que é urgente resolver. Será essencial a proibição de utilização destas substâncias e a regulamentação efetiva e assertiva na utilização de novas substâncias substitutas, ou seja, não podem ser utilizadas sem antes garantir que são seguras para o organismo humano e o feto em desenvolvimento.

Para além disso parece-me fundamental educar e informar o público em geral, e muito particularmente as grávidas, para os efeitos deletérios destas substâncias durante o decorrer da gravidez e as consequências que podem advir da exposição na saúde ao longo da vida dos filhos. Ainda que seja quase impossível não termos contacto com nenhum DE, se conhecerem as fontes de exposição e houver a consciência dos efeitos associados, mais facilmente as grávidas ou podem evitar e assim diminuir a exposição aos DE.

 

 

BIBLIOGRAFIA AQUI:

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